27. março 2017 · Comentários desativados em Em pé de jabuticaba, também se colhe maracujá · Categories: Artigos · Tags: ,

“Sou comunicativo e adoro interação social e por isso não me contratam para comprador”, assim começou uma conversa muito interessante com um profissional rotulado por anos, impedido de trabalhar num ambiente administrativo porque é muito comunicativo.  “Você é perfeito para área comercial”, diz um recrutador que o dispensa por mais uma vez ao tentar retornar ao cargo de comprador.

Você já passou por isso? Muitas pessoas são rotuladas com as características mais evidentes, os extrovertidos servem para o front e os introvertidos para o back. Os quietos na fila da direita e os inquietos na da esquerda. Assim é fácil fazer processo de seleção, basta rotular, qualquer um pode fazer isso, não há necessidade nem mesmo de formação especializada.

Para descobrir talentos é necessário fechar nossos olhos aos padrões e tentar compreender o que aquele profissional tem de potencial como indivíduo, como poderá se encaixar na equipe, quem sabe esse grupo precisa de complementação ao que aparentemente pode parecer uma aberração, mas na verdade é o “tempero” que estava faltando para fazer dela uma equipe com alto potencial de produtividade.

Quebrar paradigmas, foi o que fizemos durante esse tempo todo. Caso contrário agora estaria ainda andando de carroça porque muitos acreditavam que o homem nunca teria condições de promover estradas ou condições favoráveis à circulação de veículos que ultrapassem os 30 km por hora. Nunca voaríamos, porque nascemos para andar e correr com os pés encostados no chão e nunca sobre as nuvens. Nunca chegaríamos ao topo de uma montanha para apreciar uma bela vista, porque o medo nos faz andar no mais plano possível.

“Mas então eu posso trabalhar na área de compras?”, pergunta o profissional ainda amarrado no rótulo. “Ser comprador te faz feliz?”, pergunto, “sim” ele me responde. Não há mais nada a questionar, a felicidade é o inicio, o meio e o fim de qualquer processo, para depois sentir o  gostinho do objetivo de encontrar novamente a felicidade em outro projeto,  infinitamente. Quem comanda a sua carreira é você e não aquele profissional que tem como grande ferramenta de seleção, a mais fácil de todos, rotular.

É quebrando paradigmas que evoluímos, fazendo justamente aquilo que nos disseram por anos, que não podíamos. Ir contra a corrente não é fácil, andar contra a maré é muito difícil, também concordo, mas se a travessia for obrigatória, será custoso, mas também gostoso quando chegar na outra margem e olhar para trás e dizer, foi desgastante, mas superei tudo isso. Somos aprendizes, assim numa nova tentativa, saberás superar os obstáculos em menor tempo ou chegar do outro lado com menor esforço. E depois tentará superar ambientes ainda mais desafiadores, se experimentar é o que nos faz evoluir.

Você poderá me questionar, basta querer que as portas que eu desejo abrirão? Serei engenheiro, médico, gerente, basta querer? Ajuda, mas é preciso se preparar com competência técnica. E esse profissional tem, afirmo ele tem: analisa requisição, programa de remessas e cotações, estuda os pedidos de compras, faz a manutenção de cadastro de fornecedores, conferência e consolidação de propostas, controla recebimento de material/serviço e Notas Fiscais via sistema, administração de pagamentos, integração com o setor de logística, conhecedor do sistema SAP, módulo MM. Tem curso de administração de compras e de inteligência e estratégia em abastecimento. Somente para citar alguns pontos.

E ele já trabalhou alguma vez em compras? Sim!  E superou expectativas, fez a implantação de  uma central de compras, assessorou a diretoria na compreensão sobre a qualidade no setor. Porém, em alguns processos de seleção recebeu como resposta o que falei antes: “você tem o talento da comunicação, vá para outra área, vendas quem sabe”. E a questão maior é que ele acreditou. Somos aquilo que acreditamos ou que nos fazem acreditar?

Deixem os rótulos para as embalagens de refrigerantes, que mesmo de vez enquanto nos surpreendem com novos formatos e cores. Comece negando, não aceite o rótulo, mostre o quanto você pode, com o seu incrível diferencial, se encaixar perfeitamente nas peças faltantes de uma equipe, mesmo que para isso seja preciso mudar a imagem do quebra-cabeça. Quebre padrões!

E o que fazer se esse rótulo contagiou a carreira do profissional? O primeiro passo é a destruição da imagem que lhe fizeram acreditar e a reconstrução de uma nova forma, não de como se vê e sim de como se projetar, se encaixar nas várias frestas, beiradas, cantos, meios, formatos, mesmo que desconfortante no inicio, mas logo você reconhecerá o ambiente e o tornará confortável. Para isso, o autoconhecimento serve no enfretamento de si mesmo e mostrar que juntamente com os espaços conquistados, há outro e mais outros a serem descobertos.

Para vocês entenderem como nos deixamos nos levar por rótulos, esse profissional sempre dito como muito comunicativo, tem na verdade como principal talento comportamental o de “aconselhador”. E esse talento apresenta algum confronto com o setor de compras? Acredito que não, mas ele terá desafios, porque todos nós profissionais temos características que não se destacam, no caso desse, com a natureza bastante sociável faz com que aja de forma impetuosa, expressando-se de forma pouco cuidadosa e tirando o foco dos resultados que deve alcançar em seu trabalho, ao privilegiar o contato com as pessoas ao seu redor. Seu estilo inquieto contribui para essa dispersão e eventualmente reduz sua eficiência.

Com essas características acima, esse profissional não conseguirá emprego em lugar nenhum, muito menos em compras, não isso que estás pensando? Porém, todo o profissional tem atributos que não se destacam. É como numa balança, para apresentarmos as características que se destacam, há o contraponto, as que não se destacam. O autoconhecimento permite nos deixar preparado para os desafios e a nos “policiar” para compreender que existirão desconfortos em qualquer área escolhida, mas é temporário. É aquela travessia que lhe falei, logo você aprende a superá-los.

Então vamos rapidamente ver o outro lado, antes de cairmos na armadilha de analisar um perfil profissional somente pelas fraquezas. O talento comportamental “aconselhador” é um “bom ouvinte, sabe traduzir as situações alheias em orientações sensatas, pois acredita na sua forma de perceber o mundo e nas soluções que encontra. Isso empresta a ele uma aura de certeza que é captada pelas pessoas que o cercam. Assim, todos confiam nele naturalmente e sentem a necessidade de confiar-lhe suas dificuldades. No fundo, têm a convicção de que ele poderá ajudá-las de alguma forma. Fluente e carismático, ele tem o poder de convencer as pessoas para suas ideias e estimulá-las a seguirem seus próprios sonhos. Ele transmite tanta confiança que convence as pessoas e desperta o entusiasmo e a crença de que tudo vai melhorar e que é possível mudar. As pessoas sentem-se confiantes e seguras em sua presença. Esta é uma forte razão para as pessoas imediatamente sentirem-se interessadas sempre que ele fala alguma coisa”, conforme ferramenta DISC.

E aí, como fica agora? Conhecendo todos os lados desse profissional, algum problema com o setor de compras? Obviamente exigirá do profissional um esforço de superação dos seus pontos fracos, mas quanto de ganho trará para uma equipe um perfil “aconselhador”? Muitos! Quem sabe não seja esse o profissional que equilibrará a área de compras de um empreendimento que precisa de uma dose extra de sociabilidade, autoconfiança, diplomacia e persistência.

Ah sim, o título, não é uma simples metáfora, está no jardim da minha casa, um teimoso pé de maracujá subiu pela cerca e agora está entrelaçado no pé de jabuticaba e colho maracujás e jabuticabas que compartilham o mesmo espaço.

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