08. janeiro 2013 · Comentários desativados em Entre as regras e a inovação · Categories: Trabalho em Crônicas · Tags: , , ,

Por João Luís de Almeida Machado

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Marinho era o gerente ideal. Tudo fazia de acordo com as normas da empresa. Era capaz de inclusive mencionar em que página se encontrava uma determinação ou orientação de trabalho. Começara no Hotel como atendente. Fizera sua graduação em curso noturno. Pagara com dificuldades, pois vinha de uma família modesta. Fora o primeiro de sua família a concluir curso universitário. Sua ascensão na empresa, no entanto, fora lenta. Reconheceram seu potencial, mas seu patrão, o dono daquela rede de hotéis esperava dele que fosse um pouco além do que oferecia no desempenho de suas funções. Faltava a Marinho a capacidade de inovar, de criar…

Num outro hotel da rede, em cidade próxima, trabalhava Reinaldo, que também ocupava o cargo de gerente. Diferentemente de seu colega Marinho, a quem conhecia, suas principais qualidades relacionavam-se justamente a capacidade de improvisar, de resolver problemas, de ser criativo na gestão do empreendimento. Faltava-lhe, no entanto, comprometimento com as normas, rigor no cumprimento das diretrizes da empresa. Não que fosse irresponsável ou descabeçado, pelo contrário, era comprometido, mas fazia tudo no ímpeto, na boa vontade, na disposição de resolver as pendências e isso, por vezes, acabava não resolvendo as situações do jeito esperado.

Todos os anos, em 2 ocasiões, no início de cada semestre, ocorriam encontros envolvendo os gerentes dos hotéis daquela rede. Eram realizadas palestras, oficinas e debates sobre como melhorar o atendimento, apresentando modernas técnicas de gestão, orientando quanto a relação com clientes, demonstrando ações para melhorar o clima no estabelecimento… Era um investimento alto do mantenedor que, invariavelmente acabava induzindo a introdução de novas ações e melhorando os serviços prestados. Todos os gerentes, dos mais de 35 hotéis do grupo, juntamente com seus principais assistentes, participavam atentamente, inclusive Marinho e Reinaldo, que se conheciam justamente destes encontros.

No último encontro, entre os temas destacados estavam justamente a necessidade de maior comprometimento com as regras e padrões estabelecidos nos empreendimentos e fora trazida uma especialista para falar sobre inovação e criatividade.

A princípio tanto Reinaldo quanto Marinho pensavam que uma coisa emperrava a outra, ou seja, que o ser criativo era paralisado pelas regras ou que a aplicação do regulamento não dava muito espaço para a inovação. Foi-lhes mostrado que não era bem assim.

A palestrante, estudiosa do assunto e responsável por ações relacionadas à criatividade em diferentes tipos de empreendimentos, esclareceu que é preciso “pensar fora da caixa” para compor, realizar e agir de modo inovador. Segundo ela, isso não ocorre da noite para o dia, ou seja, tem que ser estimulado e que, para que as pessoas ajam desta forma criativa, elas precisam abrir os olhos, ler o mundo e se motivar a partir de tudo aquilo que há ao seu redor, sem se apequenar ou se limitar apenas ao seu universo imediato. Para exemplificar disse, por exemplo, que os estilistas, responsáveis pelos grandes lançamentos da moda mundial, buscam muita inspiração na natureza, olhando para a fauna e a flora, criando padrões que reproduzem a ideia, o conceito, o design e a textura da pele de animais ou de cascas de árvores, cores de frutas e do desenho de folhas.

Por outro lado, ocorreu uma mesa de debates reunindo três autoridades que destacaram a história, importância e atualidade das regras e regulamentos, chegando a conclusões que mereceram os aplausos de todos. As regras não surgiram ao acaso, foram criadas como meios de estabelecer juntamente aos homens a condição de equilíbrio, harmonização e respeito. Sem leis e regulamentos, com as pessoas agindo do jeito que imaginam ser o melhor abrem-se brechas para os conflitos, o que motivou grandes filósofos e teóricos a produzir obras marcantes como “O Leviatã”, de Thomas Hobbes. Entender os sistemas, compreender o papel e a importância de cada um, equacionar forças e orientar ações para que o coletivo produza o melhor em prol da sociedade, seja no setor público ou no privado, depende do conhecimento e aplicação das regras. E elas não devem ser vistas como “camisas de força”, ressaltaram os estudiosos, ou seja, não existem para tolher os esforços e ações criativas, pelo contrário, devem ser percebidas como direcionadores de ações, mas não como limitadores da criação e da inovação.

Marinho achou tudo aquilo interessante, mas complexo e difícil de atingir. Como ele conseguiria fazer isso com a dura rotina de trabalho do hotel, que mal lhe permitia almoçar direito? Conciliar inovações, mas de onde viriam?

Reinaldo entendeu bem os discursos, mas era resistente as regras e não entendia como poderia inseri-las em seu cotidiano sem que se limitasse em suas ações criativas, acreditava que perderia sua espontaneidade.

Felizmente, ao final daquele dia de trabalho e estudos, foi realizada uma ação que reunia profissionais de diferentes estabelecimentos em mesas de discussão. O foco era justamente fazer com que conciliassem os conceitos aparentemente tão distantes discutidos naquele dia. E como as coisas não acontecem ao acaso, na mesma mesa ficaram Reinaldo e Marinho. De sua interação veio a solução para os problemas imediatos.

Marinho se propôs a ajudar Reinaldo com o regulamento dos hotéis da rede em que trabalhavam. Seu trabalho neste sentido sempre despertara o respeito de todos e os clientes elogiavam seu modo impecável de reger a orquestra, ou seja de, administrar o hotel. Parecia até um estabelecimento britânico, de tão rigoroso. Faltava-lhe, no entanto, o jogo de corpo, a ginga e o improviso para lidar com certas situações. Seu jeito metódico, ainda que por vezes parecesse cansativo para o amigo Reinaldo, além de permitir o estudo e conhecimento das regras, servia também como lição de autocontrole e de disciplina para seu espontaneísmo.

Reinaldo, por outro lado, iniciou trabalho de orientação juntamente a Marinho quanto aos métodos e ações criativas que lhe permitiam fazer de seu hotel um dos mais inovadores da rede. Os hóspedes gostavam dos pequenos mimos reservados a quem chegava em lua de mel ou celebrando aniversários de casamento. Quem se hospedava a trabalho contava com recursos nos quartos que pareciam próprios de seus escritórios. A falta de rigor no cumprimento das regras, no entanto, comprometiam alguns serviços essenciais e geravam críticas e desconforto. Apesar de parecer um tanto quanto desorganizado aos olhos de Marinho, Reinaldo foi mostrando suas técnicas e meios para ser mais criativo. Criou um roteiro cultural para enriquecer os conhecimentos e abrir os olhos de Marinho e indicou-lhe leituras.

Eles se encontravam todas as semanas, em horários de folga, para as tais aulas. Estreitaram a amizade, é claro, mas acima de tudo, nestes momentos, afinaram os instrumentos. Reinaldo entendeu melhor o poder, a necessidade e a importância das regras. Marinho tornou-se mais flexível, aplicou inovações em seu hotel e abriu os olhos e o coração para além de seu ambiente de trabalho. Ao final de um ano, os dois tinham os melhores hotéis da rede. Ao final de 5 anos, juntos davam consultoria para todos os hotéis e, nos encontros, apresentavam sua história de sucesso adicionando a elas os resultados obtidos por eles e por todos os outros que juntavam forças e reunidos mudavam hábitos de trabalho, comprometendo-se em ser cada vez melhores…

João Luís de Almeida Machado é Doutor e mestre em educação, graduado em história, escritor e membro da Academia Caçapavense de Letras, atua no ramo de gastronomia e hotelaria como pesquisador, jornalista e professor. Consultor da QI Profissional.

23. outubro 2012 · Comentários desativados em A Arte de Servir: O engraxate que virou gerente e consultor · Categories: Trabalho em Crônicas · Tags: , ,

Por João Luís de Almeida Machado

Era ainda um garoto quando chegou ao hotel. Mal tinha idade para trabalhar, mas sua disposição chamou a atenção de seu Joaquim, o proprietário do estabelecimento. Mathias era simples, precisava do emprego, queria aprender e não tinha medo de colocar a mão na massa, como diziam as pessoas que o conheciam. Havia perdido o pai muito cedo e, por conta disso, assim que foi possível, por conta própria, se dispôs a buscar espaço no mercado de trabalho para ajudar a mãe e os irmãos mais novos. Começou trabalhando como engraxate nas ruas da cidade e já nesta função ganhou apreço, respeito e clientela.

Quando foi ao Hotel Imperial para buscar uma vaga já era conhecido de algumas pessoas, que o indicaram para o dono do estabelecimento. Ao lado do salão de barbearia e da cabeleireira, que atendiam os hóspedes e muita gente da cidade, o hotel disponibilizava engraxate para deixar brilhando os sapatos dos homens de negócio que por ali se instalavam quando passavam pelo município.

O engraxate que estava por ali antes havia se mudado de cidade, a vaga ficara aberta e Mathias chegou para atender a demanda. Além do serviço caprichado que oferecia aos clientes, ele era bom de prosa, conversava com todos, sem distinção e vergonha. Aprendia muito e sabia que aquela função era boa, mas queria crescer na vida, por isso observava o movimento do hotel para aprender outras funções.

Com o passar do tempo, Ananias, o porteiro, ficou doente e se afastou do serviço. Para suprir a ausência, necessitando de alguém de confiança, seu Joaquim ia abrir vaga temporária quando Mathias se ofereceu para ocupar, ainda que temporariamente, a função. Descreveu com exatidão o serviço, pois tantas vezes ficara de olho no Ananias a receber os clientes, que conquistou a confiança do chefe e assumiu a função. Depois de algum tempo os hóspedes já sabiam seu nome e as gratificações, comuns na época em que engraxava sapatos, também se mostravam presentes.

A observação das funções do hotel e a saída de alguns funcionários fizeram com que o jovem Mathias logo migrasse da portaria para a recepção do Imperial. Para isso, além de observar e aprender pelo exemplo, ele terminou os estudos, completando o ensino médio e ainda fazendo curso técnico para assumir algumas funções administrativas básicas relacionadas a seu novo trabalho.

Nesta função Mathias acabou ficando por um período de tempo um pouco mais longo, quase 2 anos. Não havia se acomodado, pelo contrário, queria ir além, mas sentia que lhe faltava algo. Querendo evoluir profissionalmente buscou apoio nas pessoas mais experientes do hotel, como o gerente Valdemar. Ficou sabendo por ele que para subir no ramo seria necessário continuar estudando e que, a partir de agora, um curso universitário seria importantíssimo.

Pesquisou as alternativas e descobriu que na cidade vizinha, de maior porte, havia uma faculdade oferecendo cursos de administração de empresas, justamente o que ele procurava. Inscreveu-se no vestibular e foi a luta. Retomou os estudos e conseguiu ser aprovado. Pegou os turnos da noite e madrugada no hotel para conseguir estudar de dia. Foi uma grande batalha, mas logo se tornou o primeiro membro de uma família de humildes camponeses a ter um diploma na mão.

Os quatro anos de estudos permitiram a ele assumir a vice-gerência, tornando-se auxiliar direto do Valdemar, por quem tinha grande estima e admiração. Mathias, além dos estudos, da simpatia e do trabalho árduo em prol do estabelecimento, era leal e jogava junto com todo o grupo, ou seja, sabia que o sucesso dependia do coletivo. Dividia os méritos pelos bons resultados com todos e assumia suas responsabilidades quando erros eram cometidos.

Como agora estava num cargo de chefia, muitas vezes tinha que conversar com os funcionários sobre problemas, erros e dificuldades. Tinha muito tato para isso. Sabia que a regra de ouro deveria ser sempre respeitada, ou seja, elogios eram feitos em público e as críticas sempre em particular para não expor o funcionário. Em algumas oportunidades teve que juntamente a Valdemar e Joaquim, dispensar funcionários, o que era sempre doído para todos. Mas ao entrar os funcionários eram sempre treinados e orientados quanto a filosofia e serviços prestados no Imperial para que, trabalhando com correção, pudessem ali se manter por muitos e muitos anos.

Mathias estava feliz na função, mas queria ir além, por isso foi fazer cursos de especialização. Suas qualidades inerentes e experiência em hotelaria chamaram a atenção dos professores da pós-graduação, que logo após a conclusão dos cursos o chamaram para lecionar na instituição. Ele conciliou horários até o momento em que seu Joaquim abriu um novo hotel, numa cidade de praia, e o convidou para gerenciar o novo empreendimento.

E lá foi ele para mais este desafio. A esta altura já tinha casado com a Talita, que conhecera no hotel, onde trabalhava como recepcionista, e lá foram os dois para o litoral. Gerenciaram o hotel com maestria e em pouco tempo o que era um novo serviço de hospedagem se tornava o mais popular e respeitado hotel daquele município.

Surgiram então novos convites para que ele lecionasse ou ainda para que desse palestras sobre suas experiências na área. Tornou-se consultor e professor, mas antes de sair do hotel do seu Joaquim, preparou um bom e competente substituto para sua vaga. Tinha muito respeito por seu velho patrão, que o tratava como um filho, e por isso não podia deixá-lo na mão.

Mathias, com o apoio da esposa Talita, se tornou referência na área e está prestes a se aposentar. Aquele menino, que no princípio de sua história engraxava sapatos pelas ruas, se tornou um profissional respeitado e cidadão reconhecido por todas as suas realizações. Seu sonho se realizara e, a partir da aposentadoria ele queria continuar na luta, agora ensinando aos mais jovens um pouco do que aprendera nestes anos todos…

João Luís de Almeida Machado é Doutor e mestre em educação, graduado em história, escritor e membro da Academia Caçapavense de Letras, atua no ramo de gastronomia e hotelaria como pesquisador, jornalista e professor.

08. outubro 2012 · Comentários desativados em A Arte de Servir: Lições de simplicidade · Categories: Trabalho em Crônicas · Tags: , ,

Por João Luís de Almeida Machado

Rafael nascera em berço de ouro. Seus pais eram abastados comerciantes na cidade, estabelecidos há anos, donos de melhor padaria local. Descendentes de portugueses, faziam pães tão gostosos que tinham até clientela nas cidades vizinhas. Esta prosperidade fora fruto de muito trabalho. Seu Manuel, avô de Rafael, viera de Lisboa na época em que Getúlio Vargas era presidente do Brasil. Trouxera alguns trocados no bolso e a experiência de panificação. Abrira, depois de alguns anos trabalhando na lavoura de café, com suas economias, o primeiro ponto onde funcionara a padaria. Muito modestas as instalações, mas o atendimento simpático do português, como ficou conhecido, e os deliciosos pães salgados e doces que oferecia fizeram sua clientela crescer.  Depois de uma década, comprou o terreno central onde a padaria seria construída do jeito como sempre sonhara. Passaram-se mais alguns anos até que o sonho tomasse forma. Miguel, seu filho mais velho aos poucos foi tomando gosto pelo negócio e com a idade avançada do pai, assumindo responsabilidades. Quando o patriarca da família faleceu, o negócio já era uma realidade estabelecida. O Brasil já vivia a ditadura militar, estávamos no início dos anos 1970. Foi nesta época que nasceu Rafael, filho único de Miguel e Margarida.

Paulinho, o melhor amigo de Rafael, por sua vez, vinha de família modesta de agricultores da região. Seu João e dona Ana, seus pais, tinham um pequeno pedaço de terra onde plantavam mandioca, milho e feijão. Vendiam tudo na feira semanal, estabelecida no mercado local. Tinham uma barraca onde o menino fazia desde pequeno as vezes de vendedor. Aprendeu a atender as pessoas vendo a cortesia, simpatia e jeito para as vendas dos pais e dos feirantes das barracas vizinhas. Dona Marta, por exemplo, vendia milho verde cozido, pamonha, suco de milho e broas. Além dos produtos serem frescos, o que atraía a freguesia pelo cheiro, ela parecia uma mãezona, a sempre acolher os visitantes com um grande sorriso e toda graça do mundo. Seu Alfredo, por outro lado, apesar de falar pouco, era muito habilidoso no que oferecia como serviço. Era amolador de facas e seu trabalho era tão bom que sempre tinha gente na barraca que ele montava no mercado local. Além de tudo, era muito honesto, como todos os feirantes locais, gente simples, que sabia o valor do dinheiro e que nunca passava a perna em seus clientes.

Rafael, respaldado pela família decidira abrir um hotel na cidade, carente de negócios do ramo. Observara o crescimento da localidade e percebera que a pensão da Maria e o Hotel modesto de seu Ernesto já não davam conta de acomodar os visitantes. Estudara para isso, fizera cursos no Sebrae, fora até para a faculdade em busca de mais conhecimentos. Tinham caixa para novos investimentos na família e, com o que aprendera, queria ampliar os negócios da família, mostrar seu valor e enriquecer, seu maior objetivo.

Paulinho, por seu lado, também tinha planos. Com economias acumuladas desde os primeiros tempos em que ajudava os pais na feira queria montar um pequeno restaurante. O ponto onde a padaria de seu Manoel funcionara inicialmente estava disponível e ele queria fazer ali o seu estabelecimento. Não tinha dinheiro para comprar, mas acertou a locação e instruiu-se fazendo cursos técnicos na cidade que, juntamente aos conhecimentos que adquirira no comércio iriam lhe ajudar a compor seu negócio.

Os dois tinham boa intenção, haviam se preparado para o trabalho, investiram recursos e depois de alguns meses, um deles havia saído do mercado. No Brasil as micro e pequenas empresas têm um alto índice de falência e fechamento nos primeiros anos de funcionamento. Segundo os especialistas isso acontece por falta deplanejamento, pela escolha errada do negócio, pelo ponto mal localizado ou, principalmente, pela má gestão e atendimento.

No caso dos dois jovens investidores a lição tinha sido praticamente toda ela realizadacomo indicavam os professores com os quais se formaram. Buscaram informação, tinham capital para iniciar os negócios, se estabeleceram em bonspontos comerciais e aparentemente sabiam gerir o negócio oferecendo bom atendimento a clientela. Onde então o negócio falhara para um deles? E qual deles tinha falido? Talvez Paulinho, mais modesto e sem ter conseguido fazer um curso universitário tenha falhado nas contas do restaurante. Quem sabe Rafael tivesse negligenciado algum ponto do negócio e levado o hotel a fechar suas portas…

O que aconteceu foi o seguinte… Paulinho deu conta do recado, fez a lição de casa do empreendedor, buscou bons fornecedores, que lhe garantiam qualidade e preço, montou uma equipe pequena e eficiente, atendia com cortesia os clientes oferecendo-lhes o melhor cardápio do município e com poucos meses já era conhecido na cidade. Além de tudo isso ainda recebia os clientes com simpatia e presteza todos os dias.

Rafael tinha mais dinheiro para investir e acabou fazendo um negócio grande demais para o pequeno município em que morava. O hotel ficou luxuoso e caro, demandando muitos funcionários e aumentando a folha de pagamento. Além disso, faltavam pessoas treinadas para atender na área e ele foi, com isso, perdendo a confiança dos clientes que o procuraram no breve período em que funcionou seu hotel. Além disso, Rafael dispunha de pouco tempo para acompanhar as atividades cotidianas do hotel, não dando a devida atenção aos clientes.

Passados alguns anos desta história o restaurante de Paulinho já tinha filiais nas cidades vizinhas e ele estava prestes a estabelecer um deles no shopping center da maior cidade da região. Rafael, por sua vez, tocava a padaria consolidada por seus pais e avós mantendo localmente o sucesso que as gerações anteriores haviam obtido…

João Luís de Almeida Machado é Doutor e mestre em educação, graduado em história, escritor e membro da Academia Caçapavense de Letras, atua no ramo de gastronomia e hotelaria como pesquisador, jornalista e professor.

16. setembro 2012 · Comentários desativados em A Arte de Servir: Segredos de duas gerações de garçons bem-sucedidos · Categories: Trabalho em Crônicas · Tags: , , , , ,

Antônio, ou Tony, como gostava de ser chamado, corria atrás de seu sonho. Queria vencer na vida, triunfar na cidade grande, gravar seu nome entre os melhores profissionais da área em que escolhera trabalhar. Carregava consigo esta meta e a profissão por ele definida como uma das melhores do mundo desde garoto, quando acompanhava seu pai Francisco, o velho Chico, ao trabalho.

Aprendera com o pai os segredos da profissão. Chico chegara ao Rio de Janeiro vindo do interior da Bahia. Sem muita instrução, completara apenas o primário, naquela virada dos anos 1950 para os 1960, com Brasília em construção, Juscelino assumindo o país, os 50 anos em 5 e a Bossa Nova a embalar os brasileiros, ele aportara na cidade maravilhosa.

No início, não sabia ao certo o que fazer. Como todo migrante, a construção civil parecia um caminho natural. Chico, no entanto, queria percorrer outras trilhas. E no centro da cidade viu uma placa oferecendo vaga de garçom, em restaurante popular concorrido. Topou a parada. Pegou o anúncio na porta, entrou e se dispôs a encarar o desafio. Nunca fora garçom antes, mas tinha muita disposição e podia aprender.

Passados alguns meses, percebeu que fizera a escolha correta. Destacava-se pelo porte, elegância, boa aparência e pelo modo simpático e singelo com que tratava os clientes. Ouvia a todos, dispunha-se a atendê-los com prestatividade e cortesia, acompanhava o andamento da cozinha para entregar os pratos prontos com agilidade. Passou a conhecer os fregueses habituais pelo nome e ganhava gorjetas de todos, dos mais simples aos abastados que por ali passavam.

Depois de aproximadamente dois anos um cliente o abordou com uma proposta de trabalho, percebera as qualidades de Chico e queria levá-lo para atender no restaurante de seu hotel, localizado em Copacabana, área nobre frequentada por pessoas da alta sociedade, artistas e turistas estrangeiros. Ofereceu-lhe um salário melhor e a possibilidade de crescer na profissão, migrando para esta região mais rica.

Chico fez as malas e mudou de endereço profissional. Continuou a se destacar. Era comunicativo com os clientes, mas jamais era invasivo nas conversas, preservando o direito dos fregueses a sua privacidade e pares. Homem honesto, íntegro, apesar das origens humildes, tratava com grande responsabilidade o dinheiro. Nunca embolsava o que era do patrão, como alguns colegas faziam e que em pouco tempo os levava ao desemprego. Quando recebia gorjetas pelo serviço coletivo prestado a alguém se punha a dividir em partes iguais para que ninguém fosse lesado.

Neste meio tempo, conheceu Angélica, logo que ela entrou para ser recepcionista no hotel. Se engraçou com a moça sem assim fazê-lo no local de trabalho, em respeito a seu Ananias, o patrão que nele depositara confiança. Não demorou muito e resolveram se casar. Angélica tinha chegado de Minas, onde vivia na roça, com uma família bastante simples e não conhecia ninguém no Rio de Janeiro, assim como Chico. Já estávamos vivendo o final dos anos 1960 quando nasceu Antônio.

E foi nesse ambiente, de hotéis e restaurantes, que Tony cresceu. Viu seu pai ser promovido a chefe dos garçons, depois conciérge e, mais para frente gerente do estabelecimento. A ampliação da rede levou Chico a monitorar outro restaurante de seu Ananias, localizado em Búzios, onde fazia a contratação e treinamento dos novos garçons. Sempre que podia, Tony acompanhava tudo de perto. O pai era rígido com ele, mas muito correto e sempre que podia lhe devotava atenção e tempo. Tony observou como os clientes o respeitavam, assim como os fornecedores, os colegas de trabalho e principalmente o proprietário destes hotéis e restaurantes.

Chico foi sondado para sair dos hotéis de Ananias, mas preferiu ficar. Deu oportunidade para Tony começar a trabalhar. No meio dos anos 1980, ele virou garçom no restaurante localizado em Copacabana. Gostou do trabalho, mas queria voar e, por isso, depois de alguns meses de experiência, resolveu tentar a sorte em São Paulo.

Com carta de recomendação, algum tempo de trabalho na área e contando com as lições da escola da vida, principalmente de seu pai, bateu de porta em porta até que conseguiu uma colocação. Era uma cantina nova, cujos proprietários, de origem italiana, comandavam nos moldes de empresa familiar e ele foi recebido como parte desta “famiglia” que se formava.

Queria crescer a achava que como o pai, tudo ocorreria naturalmente, mas percebeu que os tempos eram outros, a clientela havia mudado, a concorrência era grande e que para progredir, teria que acrescentar algo mais a si mesmo.

Precisava se aperfeiçoar e, por isso, foi estudar. Entrou para uma escola de garçons…

E hoje, como está Tony? Tornou-se um dos melhores garçons de São Paulo. Fez muitos cursos, ajudou a família do seu Ettore a abrir novas cantinas e é o gerente de uma delas, na Vila Madalena. Casou-se com Marília e tem dois filhos, ajudado pelas lições do pai e tendo desde cedo paixão pela profissão, enveredou pelos negócios do setor e frequenta feiras, vai a congressos sobre o assunto e está fazendo até mesmo um curso universitário no segmento de hotelaria.

Pergunte ao seu Chico o que acha de tudo isso e verá o orgulho do pai do Tony, do alto de seus 75 anos, já aposentado. Dona Angélica então, agradece a Deus todos os dias as graças conseguidas pela família, devota como é, reza e pede proteção a todos. Pergunte também aos meninos Thiago e Lucas o que pretendem fazer da vida e verá neles o quanto o amor pela profissão de garçom, conciérge ou maitre está no sangue…

Por João Luís de Almeida Machado